E o homem descreveu o mundo à sua imagem e semelhança…

Bichinho curioso esse ser humano, que gosta de enquadrar o mundo à sua imagem e semelhança. A bola da vez que inspirou este post é o vídeo Do plants respond to pain? (“As plantas respondem à dor?”) divulgado pelo Smithsonian e parte da série Amazing Plants, ou “Plantas Maravilhosas”. Elas são mesmo seres maravilhosos! Não precisamos dotá-las de características humanas para que o sejam.

O vídeo mostra dois experimentos: em um deles, a cientista coloca um vaso de mimosa pudica (aquela plantinha conhecida como “maria-dormideira”, “dormideira” e “sensitiva” cujas folhinhas se fecham com o toque) em contato com éter (afinal o éter é usado para anestesiar humanos e animais, entendem o paralelo?) e observa que a planta não responde mais ao toque depois de “anestesiada”, pois não fecha suas folhas. Em seguida ela corta um pedacinho da folha, e talvez conclua que a planta não sente dor já que ela não grita, não chora e nem diz “ai”.

"Mimosa pudica L.", essa gracinha de planta

“Mimosa pudica L.”, essa gracinha de planta

No segundo vídeo, o experimento mede pulsos elétricos ao longo de outro tipo de planta. O pesquisador acende um isqueiro embaixo de uma das folhas e verifica que o monitor acusa pulsos eletromagnéticos. Interessante, mas tudo que isso mostra é que as plantas possuem um sistema para comunicar aos outros órgãos e tecidos – sim, plantas possuem órgãos e tecidos – que há um estresse externo (fogo!) ameaçando a sua integridade, e ativando possíveis mecanismos de defesa para que a planta sobreviva. O título deveria ser “Plantas respondem à estresses extremos?”, e não “Plantas respondem à dor?”…ou o vídeo poderia trazer a conclusão: não sabemos ainda!

Viji Maria, é fogo!!! Faz isso não, seu moço...

Viji Maria, é fogo!!! Faz isso não, seu moço…

O Smithsonian é uma instituição norte americana bastante tradicional e respeitada, por isso me surpreendeu uma atitude tão relapsa na divulgação dos experimentos. Não são poucos os desafios que um jornalista enfrenta na divulgação científica: a complexidade dos temas, a necessidade de cobrir temas variados e que muitas vezes desconhece, a pressão para entregar as matérias em tempo…da mesma maneira, o cientista que quer divulgar seu trabalho também encontra dificuldades como a de modificar a linguagem para uma que o público entenda, além de ter que dar conta de um trabalho que compete com o seu tempo de pesquisa e que muitas vezes não é incentivado e nem reconhecido pela instituição da qual faz parte. Na tentativa de criar um conteúdo palatável e que interesse o público, muitas vezes os divulgadores acabam deixando a acurácia científica de lado e isto ao invés de ajudar a ciência, acaba confundindo o leitor e facilitando a disseminação de informações erradas.

Nota: A Mimosa pudica é uma planta nativa da América do Sul e pertence à família Fabaceae, da qual também fazem parte as ervilhas. Ela é bastante conhecida pelo curioso movimento de fechar de folhas, que acontece não só pelo toque como por outros estímulos de temperatura, luminosidade, privação de água e outras excitações químicas e elétricas. É o pulvino, uma estrutura pequenininha que fica na base dos folíolos, que controla o movimento.

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