O surto de sarampo e o cúmulo da cara-de-pau: por que a ética na ciência é imprescindível


O Reino Unido está passando por um surto de sarampo, e a causa é a diminuição do índice de vacinação das crianças. A vacina em questão é a MMR, contra sarampo, caxumba e rubéola (do inglês measles, mumps e rubella), que no Brasil é conhecida como a tríplice viral.

O que fez muitos pais desistirem de terem seus filhos vacinados foi um estudo de 15 anos atrás que vinculava a vacina ao autismo. O artigo foi publicado em 1998 na revista científica The Lancet pelo médico Andrew Wakefield e 12 outros colegas e recebeu bastante atenção da mídia, causando uma crise de desconfiança pública e uma série de processos na justiça por parte de pais com filhos autistas que argumentavam terem sido prejudicados pela vacina.

O caso esquentou bastante quando o jornalista Brian Deer, do inglês Sunday Times, descobriu que o estudo apresentava uma série de problemas, se baseava em dados forjados, evidências manipuladas, e quebrava diversos códigos de ética que envolvem o tipo de pesquisa conduzida. Além disso, Wakefield tinha diversos conflitos de interesse, entre eles o envolvimento em um processo milionário contra a empresa farmacêutica que fabricava a vacina, apoiado por um advogado que fazia parte de um grupo anti-vacina e pelos pais das crianças que participaram do estudo original, que segundo o Sunday Times teriam sido recrutadas através do mesmo advogado. A trama tem mais nuances que novela da Glória Perez.

Quando o estudo foi desmascarado, o Lancet retirou o artigo original parcialmente em 2004 e completamente em 2010, e a licença médica de Wakefield foi revogada pelo Conselho Geral de Medicina, significando que ele não poderia mais exercer a profissão. Sobre os resultados “”encontrados”” na pesquisa, diversos grupos se dedicaram a investigar uma possível relação entre a vacina e o autismo. Hoje já é consenso que não há evidência alguma indicando que a tríplice viral pode causar o desenvolvimento da doença, e que os benefícios trazidos pela vacinação não devem de forma alguma ser subestimados.

Mesmo com toda a pesquisa feita a posteriori e com o consenso por parte da academia e dos conselhos médicos, ainda há muitos pais que optam por não vacinar os filhos e incontáveis casos que correm na justiça de pais de filhos autistas pedindo indenização. Resultado: epidemia de sarampo. Tudo isso por causa de um único artigo resultante da má condução do método científico e da imensa falta de ética de um ex-médico (os demais autores do artigo se retrataram quanto à interpretação dos resultados, dizendo que na verdade nenhuma relação entre a tríplice viral e o autismo poderia ser sugerida pelo estudo. Uma investigação será feita – possivelmente encaminhada pelo governo inglês – para revelar a real responsabilidade dos co-autores).

Para completar, Andrew Wakefield publicou uma coluna anunciada na capa do jornal The Independent onde culpa o governo inglês pela atual epidemia, que estima-se que pode atingir até 2 milhões de crianças. Sim. O mesmo médico que teve sua licença cassada, cujo estudo foi provado fraudulento, que forjou dados e causou um declínio preocupante no índice de vacinação contra o sarampo, caxumba e rubéola, agora põe a culpa no governo e afirma que este colocou o “dinheiro na frente da saúde das crianças”. E continua defendendo a mesma posição de 15 anos atrás, quando publicou no The Lancet, mesmo depois de perder o emprego, a dignidade, a credibilidade…é o cúmulo da cara-de-pau.

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