Afinal, a ciência é XX ou XY?

O gênero do cientista pode ter grande impacto sobre a maneira como o seu trabalho é percebido, de acordo com cientistas da Universidade de Ohio. Em uma sociedade ainda cerceada pelo machismo isso infelizmente não é novidade.

O estudo contou com textos idênticos que deveriam ser analisados por estudantes de pós-graduação em comunicação – homens e mulheres. Os textos eram exatamente iguais mas os autores eram identificados ora como homens, ora como mulheres. Os resultados mostram uma diferença significativa na avaliação final de textos atribuídos aos autores masculinos, que receberam notas mais altas.

A pesquisa também mostrou que alguns temas eram vistos como mais apropriados para mulheres, como criação dos filhos e imagem corporal, enquanto outros (como política) eram vistos como mais apropriados para homens. Silvia Knobloch-Westerwich, que liderou a pesquisa, afirmou que “ainda há um estereótipo na nossa sociedade de que a ciência é uma carreira mais apropriada para homens do que é para mulheres. Mesmo entre estudantes de pós-graduação, os professores de amanhã, tais estereótipos ainda estão vivos.” O estudo, que envolveu 243 estudantes, será publicado no jornal Science Communication e já pode ser encontrada uma versão online aqui (acesso restrito): http://scx.sagepub.com/content/early/2013/01/24/1075547012472684.abstract

Esta imagem masculina do cientista chega aos ambientes informais como as mídias sociais. Um caso curioso aconteceu em março deste ano, envolvendo a página no Facebook “I f*cking love Science”.

“I f*cking love Science” é uma página bastante popular, com mais de 4 milhões de curtidas. Nela são divulgadas descobertas recentes sobre as mais diversas áreas da ciência, desde astronomia até entomologia, sempre acompanhada de fotos chamativas e impressionantes. A administradora da página criou uma conta no Twitter e causou a surpresa de muita gente que não imaginava que a conta era gerenciada por uma mulher. As pessoas simplesmente assumiram que uma página sobre ciência era encabeçada por um homem e admito que fui uma delas, mesmo sendo cientista e mulher.

Chocada com a quantidade de comentários, a própria blogueira Elise Andrew comentou no seu Twitter (@Elise_Andrew) “TODO COMENTARIO naquele post é sobre o quão chocante é o fato de que sou mulher! Isto é mesmo 2013?”

A imagem do cientista de jaleco branco, barba e óculos está tão impregnada no nosso imaginário que mesmo nós, mulheres, acabamos caindo na armadilha. Muitas agências estão cientes da força desta narrativa masculina e tem buscado incentivar a carreira científica das mulheres. A UNESCO, órgão das Nações Unidas responsável pela educação e ciência, em parceria com a L’Oreal – o que pode parecer estranho para quem quer combater um estereótipo, mas ressalto que a empresa possui diversos incentivos de empoderamento da mulher. Não vamos jogar o bebê com a água do banho – promove uma premiação anual que ocorre há 15 anos (“For Women in Science”) para mulheres que se destacam na ciência, incentivando o engajamento feminino; o Field Museum, de Chicago, realizou uma exposição com depoimentos de mulheres sobre o porquê de terem escolhido a carreira científica; a Universidade de Cornell tem um instituto para mulheres na ciência. Felizmente, são muitos os exemplos que buscam combater a imagem pré-fabricada do senhor barbudo.

Rachel Carson e Marie Curie são ótimos – e recorrentes – exemplos de mulheres que reconfiguraram a ciência, mas não precisamos nos ater a elas. Laura Bassi, nascida na Bolonha em 1711, se tornou professora de anatomia na Universidade de Bolonha com apenas 21 anos em 1731. Em uma época em que estudar era um privilégio masculino, Bassi abriu o caminho para as mulheres ao obter o título de doutora e dar aulas de física Newtoniana. No Brasil, temos a pesquisadora da Universidade de São Paulo Lygia da Veiga Pereira, que estabeleceu a primeira linhagem brasileira de células-tronco embrionárias de multiplicação in vitro, trazendo mais autonomia, independência e rapidez nas pesquisas nacionais com células-tronco . “Girl Power” no seu melhor.

Anúncios

O que você tem a dizer sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s